Blog da Liz de Sá Cavalcante

Memória

Deixar o nada ser sagrado no meu coração partido é o nascer da memória. Abrir o deserto soprando meu amor. Fora fica dentro do nascer. A espontaneidade é chorar como o céu ardendo em mim. Mosaico do ar é o pressentimento que meu respirar refaz a eternidade. Não respiro ao escrever. Nada convence o ar da exaustão do esforço do ar. Para respirar basta amanhecer, e tudo se normaliza num respirar profundo. Respirar vai além da minha consciência. Consciência da memória é o eterno, é Deus. Respingar-me em céus que não duram é ter que procurar um novo céu. Uma nova morte sou eu cutucando-me por cima do meu corpo, onde não há vida no esplendor do nada. Numa cachoeira imaginária, no vazio de mim. Nada pode me costurar por dentro. Estou costurada por fora de mim. O fim é como brincadeira de viver no além do além. Morrer brincando é construir castelos de areia, mais indestrutíveis que a alma. O silêncio bordando palavras no inesquecível da poesia. Captar-me a memória é o inabalável do meu desabar. Tantas vidas são apenas memórias sem o tempo para lembrar: isto é o tempo de lembrar num fio de fé. Faço a vida nascer como se eu roubasse o céu para  mim. Sopro todas as velas para o ar ser silêncio. As velas reacendem minha alma como o mar. Transcendo o vazio na dor da vida esvaziada. É como ver minha esperança em um último olhar no infinito do amor descrente. Levar a alegria para a falta de esperança. É renúncia. É como perder o céu para o céu. Alegria não é o amor, mas pode se tornar. Por isso aproveito ser feliz como uma picada do infinito.