Blog da Liz de Sá Cavalcante

O agora

O presente não é o ser, o ser é o que sente em si neste agora. Se o agora sente, nunca sentirei nada por ele. Nunca vou sentir como o agora sente por mim. Quando o agora é a alma de alguém, alguém se torna esse agora. O amor salva o agora do futuro. Sou sempre esse agora, deixei de ser eu para ser esse agora que é o limite entre o bem e o nada. Ser após o nada é soltar-me de mim e me tornar uma coisa que vive nas mãos do nada. Como um terço, sem fé, nem doença, apenas toca o vazio num céu clandestino na paz isolada de Deus. Escrevo dormindo em mim, escrevo com o corpo, alma, sangue, o que tiver ao meu alcance. Escrevo sem pensamento nenhum. Nada salva o amor de uma poesia. O agora predomina na poesia mesmo que fale de passado. O amor é este agora na vida, na morte, na perda, na ausência. O amor é agora, nem sempre vai estar vivo. Vou me lembrar dele em cada agora, cada amanhecer, e vou amar o que ele não pode amar. Viver o amor e sempre feliz, é tudo. E o agora é a vida, o céu, a esperança de depois.