Blog da Liz de Sá Cavalcante

Lâmina

O sofrimento não é o sofrimento, é a lâmina a entrar na poesia como se fosse o corpo do adeus, como se fosse morte. A luz da morte é o horizonte se dando ao nada, ao ser da vida. Ser a margem de mim em dedos que sufocam as minhas mãos, deformam meu corpo em almas doentes dentro de um corpo saudável. Ser evita a morte dentro do corpo de Deus. Deus é a maneira de retribuir a morte. Nada se fala na vida. Deus é tentar reaver a inexistência com flores, como laço eterno. Desenlaçar solidão no tremer do amor, que ama, ama, ama até o fim. Nessa alma, o sussurrar encanta a poesia e fez, do céu, Deus. Sussurrar sangue é o cheiro de Deus. Deus pode com a maldade sem o que me faz ser. Estou a voar no vento. O tempo não acaba. A memória é o recolher do vento, do Sol, como uma alma sem respirar. Nada se parte no vazio e sim no ser. Ser é a metade do vazio num único querer. O que falta no desejo? O ser. Na ausência, o desejo é o amor por mim. A alma mexe na morte com mãos que escorregam na morte e sente falta de mim. Não suportar a vida, suportar a vida em mim, sem mundo, são palavras. Sonhar. Eu amo o sonho como se fosse eu. No sofrer, as coisas são possíveis sem a lucidez de um único instante. No renovar a alma, o céu se bloqueia. Há épocas em que desaparecer é o tempo que me falta. Nada sente falta, nem a falta. Sofrer é nadificar Deus, é escrever meu não existir, como se existisse.